segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Turismo Bolivariano

* Tio Zeca


Meu amigo, Dr. Magalha, é o seca-pimenteira mais secado que eu conheço. Basta ele não aparecer em uma seção dominical do senadinho que a especulação começa a correr solto: “- Ele foi pra onde desta vez?”. Não falta senador jogando um veneninho: “- Deve ter ido pesquisar o capitalismo selvagem em algum país de primeiro mundo!” (país de primeiro mundo capitalista é redundância). Mas, dessa vez não. De tanto os seca-senadores dizerem que ele não fazia turismo, nem pesquisa no outro mundo, só no primeiro, resolveu visitar dois paraísos socialistas bolivarianos latino-americanos. Como tinha muitos pontos acumulados em seu cartão Amex Platinum, poderia viajar na executive class, como de costume. Corpo de bolivariano acostuma fácil com o luxo.

Mas, o Dr. Magalha é um cara antenado. Ouviu falar que alguém tinha lido em algum lugar que havia um problema de desabastecimento momentâneo de papel higiênico na ilha do Coronel Fidel (ele jamais admite que leia aquela revista capitalista, oposicionista, desestabilizadora do sistema, intrigueira, burguesa e mentirosa: a... qual? Veja, claro!). Culpa dos americanos, que fazem de tudo para tirar o conforto dos cubanos. Precavido que só ele, colocou alguns exemplares velhos de Veja na bagagem. Não me pergunte onde ele arranjou, já que diz que não a lê. Só por precaução, claro. Não por desconfiança, só por segurança. Vai que não encontra nenhum rolo de papel higiênico por lá? Homem viajado é naturalmente precavido.

A ilha é um verdadeiro paraíso, como relatou numa seção solene do senadinho após seu retorno. Uma maravilha! De tão boa que é para quem vive lá, que os seus governantes, democraticamente eleitos, não permitem que ninguém saia de lá. Por que sair de um país socialista, justo, igualitário, onde todo o povo está numa mesma classe social? Afinal, todo mundo ganha igual! Pra que? Hein? Portanto, sair de lá só se com permissão especial, que normalmente é dada para os membros do partido em férias com suas famílias. Para onde? Vamos ver se você advinha? Claro, para os países de primeiro mundo capitalistas (olha a redundância de novo!).

Logo após chegar, o Dr. foi provar os deliciosos e famosos frutos do mar de Cuba. Manda vir o prato mais completo disponível no cardápio, quase um rodízio de especiarias marinhas. Baratinho, baratinho. O problema é que aquelas delícias estavam “conservadas” nos refrigeradores do restaurante que ficaram sem funcionar no dia anterior, por falta de energia elétrica na ilha, tudo culpa dos americanos. Comeu até se entupir. Parecia o companheiro Morales em banquete de seu aniversário.

Foi para o hotel, já meio zonzo. Deitou-se para descansar da longa viagem quando de repente escuta: gruuumm, xiiiimmm, bruuumm, cuiiimm. Alerta ligado! Tá vindo... Corre pro banheiro e quando olha para a papeleira: nada! Não tinha nenhum maldito centímetro de papel higiênico. Resmunga com razão: “- É por isso que eu odeio os americanos!”.
Mas, precavido que só ele, recorre à Veja. Não teve dó. Saiu rasgando as páginas amarelas onde estava a entrevista com Warren Buffett. E, nessa hora, acabou vindo... E veio com força. Prummm, chiiimm, bammm. Parecia um furacão nos mares do Caribe, com trovoada e tudo mais. Um verdadeiro escândalo.

Após a tempestade, a bonança. Olhou para a cara estampada do capitalista mais odiado pelos neo-socialistas e... passou de um lado para o outro, com toda a raiva que ele acumulou até então. Sem nenhum dó. Até com certa satisfação. O problema é que o papel usado por Veja é, digamos assim, pouco apropriado para esse fim. Já viu pedreiro aplicando massa corrida na parede com uma espátula? Quanto mais passa, mais espalha. Foi o que aconteceu. Foi se espalhando. Passava de um lado para outro, de cima para baixo, em círculos, ou até com certa força e não adiantava. Quanto mais passava, mais espalhava. Dessa vez grita alto, para que todo mundo pudesse ouvir sua ira contra o capitalismo: “- Veja, marrom, não serve nem pra....”.

Passado o sufoco na ilha modelo de socialismo, seguiu viagem. Foi conhecer a Venezuela, epicentro das nações bolivarianas. Grande expectativa. Coração a mil. Não via a hora de poder voltar e contar para os outros seca-senadores sobre os paraísos bolivarianos que visitara. No aeroporto, a primeira coisa que foi fazer foi câmbio. Trocou dólares pela moeda local, o Bolívar Fuerte. Viu só, bolivariano também carrega dólares! Na tabela mostrava a conversão de 1 dólar = 2 Bolivar Fuertes. Pensa: “- Nossa, como é fuerte mesmo essa moeda!”. Nisso, um policial fardado chega perto dele, olhando para os lados, meio constrangido, meio disfarçando: “- Usted quieres cambiar?”. Responde no ato ao simpático policial: “- Sí, sí. Claro que sí”, e logo tira uma nota de cem dólares do bolso (ele não as carrega na cueca). O policial lhe devolve 400 Bolivar Fuertes. Matuta em silêncio: “- Uai, mas o câmbio é 1 para 2 e ele me faz 1 para 4?!”. Nessa altura, o Bolívar Fuerte já não é tão fuerte assim: de cara, perdeu 50% do valor.

Ao chegar ao hotel Sheraton, recém tomado pelo governo, através da nova estatal bolivariana venezuelana de turismo, viu uma placa na recepção onde estava escrito o seguinte: “Cambio: 1 dolar = 16 Bolivar Fuertes. No damos descuento!”. Logo abaixo, em letras menores, outra mensagem: “Baño racionado: solamente hasta 3 minutitos”.

Esses americanos realmente são terríveis. Por que fazem isso com os bolivarianos?
É tudo verdade. Pode crer.

* Tio Zeca é seca-pimenteira e autor do best seller “Dr. Magalha é minha Anta”, na lista dos mais vendidos de Veja, desde semana passada (dizem que foi escrito por um ghost writer). Escreva para: tiozecacapitalista@ig.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário