* Tio Zeca
Tem quem pense que o dito popular é “quem tem boca vai a Roma”. Até meu amigo mais culto e viajado, Dr. Magalha, pensa assim. Ele vai a Roma porque tem boca, e quem tem boca... Minha empregada Alzira diz que ele é o cara mais “curto” que ela conhece: “- Ele escreve tanto!”.
O Dr. tinha um objetivo claro para essa viagem a Roma: jantar no restaurante mais chique do mundo (acredito que também deva ser o mais caro), com talheres de ouro, guardanapos finíssimos, luz de velas e tudo mais que possa justificar o preço. Tudo bem se ele fosse um daqueles capitalistas que trabalham “só” para ganhar dinheiro, mas não. O cara é socialista declarado, de carteirinha e tudo. Até em um bolivariano ele já se transformou. Anda com chaveirinho que estampa as fotos dos maiores ídolos dos neo-socialistas: Coronel Chaves e Simon Bolívar (coitado do Coronel Fidel, anda meio esquecido). Afinal, todo bom socialista sul-americano também é bolivariano.
Foi-se o tempo em que os socialistas tinham boca e vaiavam Roma em passeatas quilométricas, bradando palavras de ordem. Pau no FMI, FHC, nas privatizações, nos bancos, nos juros... Vaia na Globo, na Veja, nos neo-capitalistas... Hoje, continuam batendo no “falecido” FHC, na poderosa Globo, na Veja marrom e em todos que tem o rompante de falar-lhes mal. Esqueceram do FMI, dos juros mais altos do mundo, dos bancos que mais lucram no planeta... Agora defendem o MST, os mensaleiros, os Judas Renan, Sarney e Collor (até elle?). Nossa, como o socialismo tem evoluído ultimamente!
Mas, voltemos a Roma.
O Dr.viajou de Aeroflot ou Tupolev russo? Claro que não. Foi numa companhia aérea capitalista transnacional, sempre mal intencionada, já que “só” visa lucro. O avião só podia ser Airbus ou Boeing, cujas fábricas estão espalhadas pelo mundo, da Alemanha à França, da China (quem diria, hein?!) aos Estados Unidos, da Inglaterra a..., sem falar que os seus proprietários também estão espalhados pelo mundo afora e só se encontram nas famigeradas bolsas de valores para comprar ou vender (especular, como dizem os neo-socialistas) ações. Obviamente que essas companhias capitalistas jamais comprariam os excelentes aviões fabricados por empresas estatais dirigidas por competentes executivos do partido e montados por satisfeitos operários que recebem “todo” o necessário para uma vida saudável, alegre e rotineira num país que não deixa ninguém sair de lá porque não tem nada para ser visto além de suas fronteiras.
A passagem deve ter custado uns 600 dólares porque a concorrência predatória dessas companhias capitalistas transnacionais fez com que os preços despencassem de perto dos dois mil que eram quando o Governo, guardião do povo, protetor dos oprimidos, salvador dos direitos dos excluídos, tabelava os preços e impedia a concorrência. Se não fossem os pontos ganhos em seu cartão American Express, teria que viajar lá na carroceria, como é conhecida a classe econômica. Deus me livre, ou melhor, Deus o livre (socialista verdadeiro acredita em Deus? Em Judas parece que o líder maior acredita). Nada disso, com os pontos ganhos nas compras de mercadorias produzidas por empresas capitalistas transnacionais que tiram o sangue de seus funcionários (algumas delas ainda cometem o sacrilégio de distribuir lucros ou bônus em ações) com seu Amex Platinum, pôde fazer um upgrade e foi viajar na executive class. Nunca antes na história deste país, os socialistas tiveram tantos cartões de crédito (até aqueles corporativos do governo e estatais).
Na executiva, longe do proletariado lá da carroceria, o Dr. até parece burguês socialista (existe isso? Claro, são os dirigentes do partido, os que mandam). Pôde degustar lagostas do Maine, king crab do Alasca, caviar de esturjão beluga do Mar Cáspio, champagne de Champagne (claro!). Tudo que o melhor socialista e qualquer capitalista possa merecer.
Chegando ao Fiumicino, desce antes do proletariado da carroceria, carimba seu passaporte no cantinho que sobrou, de tantos carimbos que tem, e vai direto à Hertz, aquela outra empresa capitalista transnacional que só pensa em dar lucro aos seus acionistas alugando carros pelo mundo todo. Vai alugar um Fiat Uno? Mille? Siena? Nem a pau, Juvenal: sai de Mercedes-Bens novinho em folha, digno dos mais altos dirigentes do partido, alugado a preços módicos impostos pela concorrência. Afinal, não é porque o meu amigo é bolivariano que deva andar de Lada.
A crise financeira mundial causada pelo capitalismo explorador e sem limites trouxe duas alegrias para os neo-socialistas. A primeira foi dizer que o capitalismo está acabado (até que enfim!). A segunda alegria foi poder aproveitar a promoção do Ritz-Carlton, antigo reduto exclusivo de capitalistas e chefões do partido. Não fosse o começo do fim do capitalismo, sua diária seria pelo menos umas mil e quinhentos pilas
(Euros!) por um quartinho. E agora?... Barato que até poderia suportar algumas baratas andando pelos cantos do armário. Bendito fim do capitalismo!
Para comer com talheres de ouro, só se for acompanhado de um bom vinho. Em
épocas de apocalipse capitalista, dá até para arriscar e pedir indicação ao maitre. Châteu Pétrus, o preferido do companheiro Zé Dirceu? Ou um Romanée-Conti, do líder maior, Lula? Na dúvida, pergunta ao maitre. Sangue-de-Boi, só nos jantares dos seca. Para sobremesa, nada mais italiano do que um sorvete italiano! Tiramissu? Também vai bem. É baratinho; não passa de vinte pilas. Depois de jantar no restaurante mais chique do mundo capitalista, socialista que se preze ajuda a distribuir riquezas: deixa uma gorjetinha para o garçom. No fundo, meu amigo tem um bom coração, excelente humor, aprecia as coisas boas da vida e seu tempo livre para visitar países capitalistas e estudar o capitalismo selvagem (na África? Claro que não; na Europa, que é bom).
Por isso, digo, bolivariano que tem boca, vai a Roma.
* Tio Zeca é seca-pimenteira que ocupa a cadeira número 16 do senadinho. Como todo capitalista literário sem tempo, paga para ter um ghost writer. Escreva para: tiozecacapitalista@ig.com.br
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
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