segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Geneve e Genova

* Tio Zeca
tiozecacapitalista@ig.com.br
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Dr. Magalha é um bom filho. Ninguém tem dúvida disso. Resolveu fazer uma surpresa pra mamãe: dar-lhe um cruzeiro de travessia transatlântica, da Europa para o Brasil. Tudo que qualquer bolivariano adoraria fazer. Para ficar mais econômico, comprou o pacote com bastante antecedência e usou seus pontos do cartão de crédito American Express Platinum para a passagem aérea. Como a compra antecipada dava direito a levar um segundo passageiro de graça, mamãe resolveu levar sua amiga Léia.
Quando lhe perguntaram: “- E pra sua sogra, não vai dar nada?”, respondeu na hora e com o peito estufado: “- Já dei. Comprei pra ela uma passagem para a Ilha de Cracatoa, de presente de aniversário de 70 anos”. Admirado com tamanha generosidade do Dr., continuou: “- Nossa! E quando ela fizer 80 anos, o que você vai dar?”. Responde rindo: “- A passagem de volta”.

Só que a maior surpresa estava por vir. Eles iriam se encontrar no meio da viagem. Você acha que o Dr. iria perder uma viagenzinha dessa pelos mares europeus? Fez a bagagem: tênis Nike, novinho em folha, comprado no free-shop de Madrid, uma camiseta do Che Guevara, a toca com o escudo do Vasco, para proteger-se do sol, uma sunga vermelha, para aproveitar a piscina, o terno Armani, para o jantar com o capitão e a máquina fotográfica Canon, de 36 mega pixels, comprada no free-shop de Ponta Grossa.

Elas embarcaram felizes com destino a Europa. O navio partiria em dois dias, do porto de Genova, na Itália. Ao chegar, todo aquele trâmite burocrático: alfândega e imigração. Mas, algo estava meio estranho. As placas estavam escritas em algum dialeto italiano que não dava pra entender. Também não conseguiam entender nenhuma palavra que lhes dirigiam. Mas, a alegria era tamanha, que nem ligaram para esse detalhe. Não viam a hora de embarcar naquele enorme navio, cheio de luxo, com tudo de bom dentro dele.

Tomaram o primeiro taxi e Dona Léia logo saiu falando em italiano: “- Per favore, hotel Inter-Americano”. Responde o sisudo taxista, no que parece ser o dialeto local: “- Hotel Interamericano. Ja, ich komme in einer Minute an”. Foram apreciando a paisagem, conversando animadas sobre tudo e todos. Ao chegarem ao enorme hotel Interamericano, D. Léia pergunta ao taxista, gastando todo seu italiano: “- Quanto é?”. O taxista, sem pronunciar uma única palavra, mostra-lhes o taxímetro. Elas pegam uma nota de 50 Euros e tentam lhe entregar. Ele faz sinal de não e fala com certa irritação: “- Ich akzeptiere nicht Euro”. A discussão segue mais ou menos assim:
“- Mas que diacho de dialeto italiano é esse?”
“- Madam, Ich nehme keine Euro auf”.
“- La plata. Mira su plata”.
“- Nein, Madam, Ich nehme keine Euro. Ich möchte Schweizer Franken”.
“- Schweizer Franken?! Che cosa é?”
Responde o taxista, já com ânimo alterado: “- Das macht nichts”, e pega o dinheiro. Mal espera as jovens senhoras tirarem suas bagagens do porta-malas e sai cantando pneus. “- Como são grosseiros esses taxistas italianos, Leinha!”.

Elas entram no majestoso saguão do hotel, digno só da elite das elites do partido. Embasbacadas com tamanho luxo, enlouquecem. Girando com os braços abertos, olhando para os lustres de cristal Bacará, tapetes persas, vasos Ming... “- Leiiinha, que M-A-R-A-V-I-L-H-A esse hotel que o Magalhinha nos colocou!”. Na recepção, sacam o voucher e o entregam ao simpático recepcionista que sai digitando o nome delas no computador. Nada registrado. Digitou o código da reserva. Nada. Olhou melhor no que estava escrito e tenta se comunicar com D. Léia, que é poliglota. Explica que o voucher é do hotel Inter-Americano, de Genova, Itália. Ela responde, indignada: “- Ora, e você acha que eu não sei? Afinal, nós não estamos no hotel Inter-Americano de Genova, Itália?”. Constrangido, ele responde: “- Não, madam. Estamos no hotel Interamericano de Geneve, Suíça”. Minuto de silêncio. Frio na barriga. Não é que o Dr. Magalha trocou Genova por Geneve! Os códigos dos aeroportos são parecidíssimos: GOA e GVA. Por mais viajado que possa ser, todo social-democrata bolivariano pode cometer um pequeno erro como este. Elas correram tomar o primeiro trem a tempo de chegarem ao porto de Genova, na Itália, e embarcar no cruzeiro dos sonhos. Dr. Magalha, sem saber o que estava acontecendo com mamãe e D. Léia, continuava pesquisando o capitalismo selvagem, desta vez nos vinhedos da Borgonha.


* Tio Zeca é seca-senador com profunda experiência em cruzeiros. Quando está em alto mar, seu ghost writer aproveita pra escrever qualquer coisa. Dr. Magalha é ficção.

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